sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Sábado, 04 de Janeiro de 2008

Faz já algum tempo que a minha frota se encontra em alto mar. E é por causa de todo esse tempo e para não perder a noção dos momentos preciosos que já perdi que inicio este diário de bordo.
A Santa Catarina está com dificuldades em recompôr-se. De todas as naus, é a que tem dado mais problemas. Incrivelmente frágil, mas capaz de transportar carregamentos inteiros... Nunca conseguimos arranjá-la devidamente desde que apanhámos as tempestades do Pacífico. Ficou sempre assim, irremediável... ou talvez não tenhamos marinheiros muito experientes no assunto.

Todos sentimos muitas saudades dos nossos lares, cada um à sua maneira. Eu, ainda que me encontre igual, procuro levantar-lhes o ânimo, mas já nada esconde as suas feições de desânimo. E eu sinto que não conseguirei esconder as minhas por muito mais tempo.

As tempestades são passado... mas que o mar é presente desde há imenso tempo não é novidade para ninguém...

Apesar de tudo, este mar estranhamente calmo incomoda-nos e as brisas estranhamente leves arrepiam-nos a espinha. Não que seja mau, mas nada parece fazer sentido aqui... Cada vez mais sentimos que nos metemos por águas erradas... Há algo que não está certo...

Sentimos cada vez mais que é uma calmaria que traz consigo desastres semelhantes aos do Cabo Tormentório, a Norte de África... Mas não vemos nenhum cabo... Não vemos terra desde que uma das naus encalhou numas rochas e demorámos imenso tempo a voltar à nossa rota.

Este mar é mentiroso; cada brisa fresca que traz consigo, cada onda mais cristalina é uma mentira. Sabemos muito bem que estamos à sua mercê e que, a qualquer instante, pode engolir-nos as naus e sugar-nos as vidas...

Claro que não digo isto aos meus companheiros, pelo menos directamente; também acho que todos já chegaram a essa conclusão, mais ou menos igual...

É como se cada onda que se levanta trouxesse com ela um monstro para nos destruir... é como se este mar tivesse algum segredo que não devemos descobrir...

E nem as estrelas do céu nos podem livrar deste buraco negro no qual navegamos há já 3 anos... que mais pareceram 3 séculos.

Estamos perdidos, sei-o. E isso é algo que mais ninguém sabe. E não pretendo contar a ninguém.

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