sábado, 12 de janeiro de 2008

Sábado, 12 de Janeiro de 2008

Continuamos a rumar para Norte... mas hoje apanhámos uma desilusão.

Encontrámos os destroços do barco que levava um dos nossos tripulantes com uma carta para o rei. A boiar, já sem tinta, estava uma folha de pergaminho... que nunca chegou ao seu destino... o rei nem se deve lembrar de nós, ou deve achar-nos mortos...

E agora? Que vai ser de nós?

Esta noite tive outro sonho... sonhei que me encontrava num mundo onde todos eram punidos com um castigo duplamente mais doloroso que o crime que tinham infringido... e, no meio de gente que gritava de dor, vi nosso rei morto...

É claro que tudo não passou de um sonho... imaginem se isso se torna verdade... não, seria horrível...

Mas o certo é que tive um mau pressentimento... Gosto de me sentar na proa do navio e de tocar alaúde enquanto observo o mar... mas tenho maus pressentimentos... sinto algo de mau...

Todos os dias penso nas palavras do velho louco que vi na ilha... Talvez seja apenas essa preocupação exagerada que me está a deixar cada vez mais cansado... Vejo e ouço mal... Dói-me o corpo todo, como se quisesse rebentar...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Acabei por ir eu à procura das plantas... de certo modo, aquele que eu mandei nunca mais regressou... E aqui é que cada vez compreendo menos... mas quero sair destas ilhas o mais depressa possível...
Aquando a minha chegada, não comentei nada disto com os meus companheiros. Mas vou escrever, ainda que me custe, este estranho encontro aqui, para poder pensar nele mais tarde...
Embrenhei-me pela floresta escura e densa. Não sei em que direcções andei, porque só o podia fazer consoante a vegetação me permitisse. Perdi a noção do tempo.
De súbito, algo me agarra pelas costas. Rápido, agarrei num punhal. E vejo um homem, velho como o tempo, magro como o ramo de uma árvore e de barba densa e escura como a vegetação. Baixei a arma. O homem, num fio de voz, perguntou
"Sois o Almirante?"
Eu não respondi, não dei a entender se sim ou se não. Mas ele percebeu, creio, pelo que disse com a sua voz sumida:
"Meu Deus...".
"Que quereis?" perguntei: aquele homem intrigava-me. O homem não respondeu quem era. Antes disse:
"Norte não. Não ir a Norte."
"Mas porquê?" perguntei eu.
"Não, não! Não estar autorizado a contar, eu..."
"Conta-me. Que queres em troca?"
Com um gesto discreto, o homem apontou para o punhal na minha mão direita.
"Seja."
Dei-lhe o punhal. O homem, então, disse:
"Norte, frio. Norte, triste. Norte, mau, muito mau. Não ir para Norte. Norte mata."
"Não percebo! Deixa-te de enigmas! O que mata? Por que mata? Não percebo! Fala!"
"Não contar. Norte me ter matado. Querer viver de novo, eu."
"Viver de novo? Como?"
"Viver agora."
Então, o homem cravou o punhal no coração...
Não digo que não me deixou preocupado. Não que lhe tenha encontrado algum fundamento. Aliás, a melhor explicação é esta: um homem perde-se no Norte, dá a estas ilhas, enlouquece com a solidão e, num último desejo de se ver livre das ilhas e cansado de viver, apunhala o próprio peito. Explicação mais credível não pode haver. Mas intrigou-me.
Acerca das plantas: cinco dos meus tripulantes pereceram com plantas venenosas. O outro está a salvo. Não tarda em recuperar. E a S. Uriel já se pode lançar ao largo...
Sairemos destas ilhas, hoje à noite. E iremos para Norte...

Quarta-feira, 09 de Janeiro de 2008

Sinto saudades de vosso sorriso
Mas sei que um dia, senhora, em tarde amena
Vos encontrarei calma, doce, serena,
Abrindo-me as portas do Paraíso…

Mas p’ra meu mal vos haveis apartado
Perdesteis do rosto os lábios rosados
Vossos lindos olhos agora fechados
Cabelos sem cor, coração parado.

Não quero a Vida, escolho a Morte!
Não quero ter de viver esta sorte
De ter de aguentar algo tão atroz!

Quero morrer já, ver vosso olhar terno
Serei punido, mas creio o Inferno
Menos doloroso que uma Vida sem vós…

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Terça-feira, 08 de Janeiro de 2008

No final, apesar de termos a consciência de lidar com uma epidemia na certa evidente, o céu acabou por nos presentear! Ao fim de meses com cor baça, a noite finalmente deixou aparecer a nossa estrela, a Estrela Polar! Se tudo estivesse bem, poderíamos finalmente voltar para casa…
Mas nada parece vir ficar bem… bem procurámos, mas não encontrámos a planta, nem a curativa nem a venenosa… mais dois dias e os nossos companheiros morrem… e não serão só eles; a doença é algo que alastra depressa; afinal, aos quatro juntaram-se mais dois…
Mas temos a Estrela…
A esta hora, o ambiente na S. Uriel já deve estar empestado, a não ser que os curemos… é impossível partir.
Mas o simples facto de a Estrela estar visível no céu nocturno já me levanta o ânimo… talvez nada esteja perdido; ainda vou voltar para casa nesta vida, se é que existe outra…
Faz pouco tempo mandei um dos meus tripulantes a procurar, mais uma vez, a planta, quer seja medicinal ou não… e agora?

Agora nada. No fim de contas, a única coisa que nos resta fazer, a nós, que nos encontramos aqui, é esperar…

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Segunda-feira, 07 de Janeiro de 2008

Está a acontecer algo tão estranho que ainda não achámos como o explicar!
Ao romper da alvorada, achámos em quatro colegas nossos alguns inchaços nas costas e braços e estes doem-lhes tanto que mal se conseguem erguer em pé. Passaram o dia inteiro deitados dentro da S. Uriel com olhares sonolentos e aspecto ensebado. Além do mais, têm febres tão altas que ainda não percebemos como podem ter frio...

Já tive contacto com esta doença sem nome, altamente contagiosa, por pouco tempo num encontro com umas populações africanas... eles curavam os doentes com uma mezinha feita de umas ervas especiais. Mas há um senão: existe uma outra erva em maiores quantidades que é exactamente igual à curativa, senão pelo simples facto de ser venenosa.

Os nossos companheiros ficaram isolados dos outros devido a contágio certo. Ou encontramos as ervas ou estarão condenados.

Ainda não percebemos as causas que levaram ao aparecimento da doença. Nem mesmo essa tribo africana as conhecia. E agora eu pergunto-me o mesmo: mas o que originará a doença? Será de algo existente na ilha? Algum insecto? Alguma planta? O próprio ar que respiramos?

Sei que é uma doença mortal e de contágio rápido. Só nos resta encontrar as plantas, se é que nestas ilhas há algumas...

Está certo que corremos o risco de colher as plantas erradas e de os matar. Mas é a nossa única esperança e, de certo modo, condenados já eles estão.

Não nos agrada a ideia de sermos responsáveis, em certa parte, pela morte de quatro companheiros nossos... Mas, custa-me dizê-lo, são quatro vidas para dezenas de outras. Não nos podemos arriscar ao contágio. Temos de encontrar a planta, venenosa ou não...

É a única esperança que temos...


... E que Deus nos guarde...

domingo, 6 de janeiro de 2008

Carta a El-Rei D. João de Portugal

QUE TRATA DO ACHAMENTO DAS PÉROLAS DO ATLÂNTICO
A El- Rei D. João de Portugal, pela graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além-mar, ano dois mil e oito do ano do senhor.
É de memória de vossa majestade que hemos partido do porto de Lisboa corria o dia sete do sexto mês do ano dois mil e cinco com uma frota de três caravelas, que dão pelos nomes de Santa Catarina, Santa Luzia e S. Uriel, rumo à descoberta de novas terras que se possam anexar ao império ultramarino português que tanto tem ajudado a levantar a moral e orgulho de nosso conterrâneos; assim seja.
Escrevo-vos a informar que, pelo raiar da alvorada, hemos dado com jma praia longa e branca e hemos também podido constatar que não se tratava apenas de uma, mas de várias ilhas que distavam mais ou menos a mesma distância, que é a de aproximadamente uma légua. Pusemos-lhes o nome de Pérolas do Atlântico, devido à cor prateada da areia aquando o Sol do meio-dia e às suas formas arredondadas.
Após o longo areal prateado, há florestas tão densas que vai ser difícil voltar das biscas. As ilhas não têm indícios de habitação humana ou de qualquer outra forma de vida, pelo que temos tomado as ilhas como desertas.
Pensamos que se encontrem a Oeste do Norte de África, talvez mais para as Américas... mas não temos a certeza...
As condições não têm estado favoráveis à navegação, devido a nevoeiro intenso, o que nos coloca o astrolábio completamente inútil.
Pensamos permanecer nas ilhas até o nevoeiro amainar.
Fez pouco tempo um dos meus tripulantes apareceu com uma pedra que continha uns pós doirados... ainda não os identificámos, mas espera-se que seja ouro.
Não sabemos por quanto tempo teremos de permanecer aqui... Só sei que reuniremos esforços para achar como tirar proveito das ilhas para Portugal.
Juntamente com esta carta envio-vos um minério de cor prateada que, não se identificando como sendo prata, pode ser novo e de grande interesse.
O Almirante,
Roberto Calderón

sábado, 5 de janeiro de 2008

Domingo, 05 de Janeiro de 2008

Assim se passou mais um dia de Reis. Sem nenhuma refeição especial, sem nada de especial... apenas vivido de maneira diferente no coração de cada um de nós...
O nevoeiro é cada vez mais intenso... Ah, ainda se ao menos tivéssemos a Estrela!...
A Estrela... esse símbolo especial que guiou os três reis no caminho para Belém... Mas, connosco, o nevoeiro é tão intenso, dia ou noite, que a nossa estrela, a Polar, não nos pode orientar muito... Desaparecu do céu com as outras estrelas...
Sei que correm boatos entre os tripulantes. Se há aqueles que me defendem como bom Almirante, há aqueles que me acusam de perseguir um fantasma que nem a certeza que seja real...
Com tudo isso, questiono-me muitas vezes: na tentativa de encontrar um mundo novo, encontrarei algo que há muito tempo perdi? Será, de facto, esta viagem um acto egoísta de procura por um fantasma na história da minha vida? Sei que ele existe, pois mudou a minha vida... e a prova disso é como me encontro agora...
Em tempos esse fantasma afastou-me de toda a gente, daqueles que eu mais amava... E agora obriga-me a afastar os meus companheiros daqueles que amam...
Tenho andado a ter sonhos estranhos... num, tento alcançar terra firme mas, quanto mais me aproximo, mais forte é uma rajada de vento que me impele para trás... até que, num último esforço, aproximo-me tanto e aventania é tal que a minha nau fica desfeita. Recentemente, voltei a sonhar com o que mais assombrou a minha vida nos últimos 3 anos... sonhei que segui esse fantasma pelo Oceano... E não será o que estou a fazer agora, pelo menos inconscientemente?
Muitas vezes, ainda me parece ouvir um cantar vindo das profundezas do Oceano...
Mas eu não mereço esta gente... não os mereço e eles também não merecem alguém tão mesquinho...
Oh, graças aos céus! Avisto terra! Poderemos desembarcar em breve durante alguns dias...
Ainda há Esperança!...